Meu livro é literatura? Entenda o que é literariedade
- Gustavo da Mota

- há 3 horas
- 6 min de leitura

Quando nós nos pomos a a escrever, pode vir a dúvida: será que o que estou escrevendo é literatura? Ou é só um amontoado bem organizado de palavras?
Palma, palma, não priemos cânico. Essa dúvida é normal, e vem do fato de que não aprendemos pra valer na escola sobre essa tal literariedade que prova que um texto tem (pelo menos na teoria) mais qualidade que os outros.
Entender o que é literariedade pode ajudar você a dar aquele tempero extra pra sua obra, e para fazer com que ninguém duvide que o que você escreveu realmente é literatura das boas.
Mas o que é literariedade?
A ideia de literariedade nasceu lá pela década de 1920, com os formalistas russos. Roman Jakobson cunhou o termo pra tentar responder à pergunta: o que faz um texto ser literatura, e não apenas um relato, uma bula de remédio ou a lista de compras do mercado?
Segundo o que Jakobson compreendeu, literariedade é aquilo que desvia a linguagem do seu uso comum, que a torna estranha, que faz o leitor notar a linguagem em si, e não só a informação que ela carrega. Isso tem nome bonito: estranhamento, ou ostranenie, se você quiser impressionar alguém numa roda de conversa.
É por isso que a sua lista de compras não é literatura; ninguém para pra admirar a beleza da palavra "detergente". Mas se você escrever "o detergente escorre como uma confissão tardia sobre a pia suja da louça de ontem", aí sim, alguma coisa mudou. A linguagem deixou de ser só uma ferramenta transparente e virou o próprio objeto de atenção.
Problema resolvido? Nem pensar
Claro que, sendo teoria literária, ninguém concorda com absolutamente nada até hoje (é praticamente um esporte acadêmico). Digo isso, porque depois dos formalistas russos vieram outras correntes com outras respostas:
Estruturalistas disseram que literariedade tem a ver com organização interna do texto, ou seja, como as partes se relacionam entre si, criando um sistema coerente e autossuficiente;
Teóricos da recepção, como Wolfgang Iser, jogaram a bola pro leitor: literariedade não estaria só no texto, mas no efeito que ele provoca em quem lê, nos espaços em branco que o leitor precisa preencher com sua própria imaginação.
Pós-estruturalistas, por sua vez, quiseram dar mais pano pra manga e meteram o lasque-se: para eles, a fronteira entre literário e não-literário é arbitrária e movida por convenções sociais e institucionais. Ou seja: varia de acordo com o tempo e o contexto.
No fim, todo mundo tem um pouco de razão. Não existe uma fórmula mágica, um checklist de "3 sinais infalíveis de que seu texto é literatura" que você vai encontrar num vídeo de 40 segundos por aí. Quem promete isso são os vendedores de cursos mágicos que prometem transformar seus livros em best-sellers instantâneos, e você sabe que aqui na Noz não temos esse papinho furado.
Então como eu sei se o que eu escrevo é literário?
Eis uma verdade desconfortável, cara leitora ou leitor: você provavelmente não vai saber com certeza absoluta, e tudo bem. Mas alguns sinais ajudam a te colocar no caminho certo, veja só:
A linguagem trabalha, não só informa. Se cada frase do seu texto poderia ser substituída por uma mais direta sem perder nada, provavelmente você está apenas relatando uma história, mas não está narrando de forma literária.
Existe um certo nível de ambiguidade proposital. Literatura de verdade raramente entrega tudo mastigado. Ela convida o leitor a interpretar, discordar, sentir coisas diferentes do que o vizinho sentiu lendo o mesmo parágrafo. O sentido do que foi escrito não é 100% claro, mas definitivamente também não deve ser 100% obscuro. Deve dar pistas, mas sem entregar o ouro.
A forma importa tanto quanto o conteúdo. Não é só "o que" você conta, é "como". Dois autores podem escrever sobre o mesmo enterro e produzir uma cena burocrática ou uma cena que arrebenta o leitor por dentro. A diferença está inteira na forma de contar, nas palavras usadas, no jeito com o qual foram contadas.
Existe um trabalho consciente de construção. Ritmo, escolha lexical, estrutura de frase, ponto de vista narrativo: tudo isso é decisão clara, consciente, e não meros acidentes. Isso significa que a primeira versão do seu texto raramente já vai sair como literária. É a reescrita, são as edições que constróem a literariedade.
Não dá pra ser um livro bom sem ser literário?
Depende da função do livro, é claro. Um livro de receitas não precisa ser literário, mas imagine um outro livro de receitas que, para inovar, traga a lista de ingredientes com adjetivos incomuns e poéticos, ou que escreva como se fossem instruções para um completo idiota. Isso vai dar o temperinho da literariedade, chamando mais a atenção do que um texto regular.
E olha só, é BEM importante frisar que literariedade não é luxo de "livro difícil". Nós aprendemos nas aulas de Literatura na escola que apenas os livros difíceis de se ler são literatura; todo o resto é só tentativa medíocre, sem valor literário. Mas isso é uma bela de uma furada. Ser literário é escrever com palavras que causam certa estranheza, e você não precisa usar os dicionários do século XVIII para conseguir esse efeito.
Vou dar um exemplo. Eu sou fã inveterado de Manuel Bandeira, então eis aqui um poema curioso e talvez bem desconhecido dele, do livro Libertinagem, de 1930:
Poema tirado de uma notícia de jornal
João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número.
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.
Naturalmente, pode-se haver várias interpretações para esse poema. Mas você concorda que há algo nele que faz você sentir que não está lendo uma notícia de jornal? O que seria esse algo pra você? Não vou dar nenhuma resposta, porque a arte não é feita de respostas, e sim de reflexão e interpretação.
A pergunta-chave é: O que esse poema tem de estranho?
Mas sigamos. A literariedade é importante para um romance popular, uma autoajuda narrativa, uma ficção de gênero, poxa, até mesmo uma poesia de Instagram. Qualquer coisa que deseje ser lida e sentida com mais intensidade do que uma bula de remédio.
São muitos... M U I T O S... os textos que a gente vê nos livros atuais nos quais se tem uma boa ideia, mas a linguagem vem toda escrita no piloto automático. É um emaranhado de diálogos irreais, que parecem transcrição de conversas de WhatsApp, sem as falhas humanas ou os pormenores da interação social, sem ironias, figuras de linguagem ou de pensamento. Ou então com metáforas ou frases de efeito que parecem bonitas no Facebook, mas que são repetidas tanto e por tanta gente, que não destacam sua obra. Ou ainda, no caso de poemas, traz rimas que só estão ali por estar, para que o som fique igual.
O papel de uma boa revisão editorial é o de ler a obra do autor ou da autora e oferecer palpites e sugestões de literariedade pra valer (feitas por quem entende de teoria literária e prática editorial, não só de Word, Canva e IAs) faz diferença real na qualidade literária final do seu texto. Muita gente pensa que uma revisão editorial significa corrigir vírgula. Também envolve isso, é claro, mas o editor profissional vai muito além: ajuda quem criou a obra a enxergar onde a linguagem ainda está apenas informando, quando ela poderia estar acontecendo.
Conclusão
Literariedade não é um selo que se carimba, é uma qualidade que se constrói, frase por frase. Ninguém nasce sabendo escrever de forma literária, e nem os teóricos concordam totalmente a respeito dos caminhos para uma literatura perfeita, mas quanto mais você entende o conceito, mais consciente fica o seu processo de escrita, e isso, sim, muda o resultado.
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E se esse texto te deixou com aquela pulga atrás da orelha de "será que meu manuscrito tem literariedade ou só tem parágrafos", talvez seja hora de uma conversa com quem lê profissionalmente pra isso. Os meios de contato estão logo ali na barra inferior do site.
Obrigado pela leitura, e até a próxima!
-Gustavo
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